Fabiano e sua rotina como vendedor de mate no Rio retratam desafios e oportunidades da profissão


Fabiano, 37, trabalha há mais de 15 anos com a venda de mate de praia. (Foto: acervo pessoal)


Acordar às 6 horas da manhã, percorrer um trajeto de 40 quilômetros com quase 50 quilos nas costas, passar o dia andando sob o sol e voltar quase às 22 horas para casa para repetir tudo no dia seguinte. Essa é a rotina do vendedor de mate de praia Fabiano Souza, de 37 anos, que hoje é um dos mais reconhecidos profissionais de sua profissão, considerada patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro.

Com quase 2 mil seguidores no Instagram, Fabiano é hoje uma das figuras mais marcantes do cenário das praias cariocas. Quem o vê todo dia sempre com um sorriso no rosto e vendendo um dos mais típicos refrescos praianos - junto com o tradicional biscoito Globo nem imagina a dificuldade que ele tem que enfrentar até a sua chegada ali.

Morador do bairro de Guadalupe, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde vive com o seu filho de 15 anos, Fabiano precisa acordar por volta das 6 horas para começar a preparação do mate em sua própria  cozinha. Uma vez pronto, ele segue um percurso de mototáxi, um ônibus e metrô para, em cerca de 1h30 de trajeto, estar finalmente no seu posto de trabalho: a praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. 

Lá, as coisas não ficam mais fáceis. O comerciante faz um percurso de cerca de 1 quilômetro entre o posto 9 e 10 debaixo do sol e temperaturas que podem chegar a 40°C. Com 40 quilos sobre os ombros, ele percorre facilmente 15 quilômetros tentando vender o seu produto. 

Há 16 anos vendendo mate na praia, Souza conta que antes trabalhava em um prédio próximo à praia de Ipanema, onde assistia o cotidiano de seus futuros colegas de profissão. 
Quando fui mandado embora, peguei o dinheiro da rescisão e comprei um galão. Isso foi em 2003. Trabalhei no primeiro verão, gostei, mas aí quando chegou o inverno, achei que não valia a pena - contou.

Essa foi uma das maiores dificuldades encontradas pelo vendedor no início de sua carreira. Em um dia bom em pleno verão carioca, o faturamento pode chegar até os R$ 300,00 - com o mate sendo vendido a R$ 5,00 reais o copo - mas no inverno, Fabiano conta que já chegou a voltar com R$ 15,00 reais para casa, o que não cobria nem o preço das suas passagens:

Eu fiz bicos em obras. Fazia de tudo um pouco para ajudar na renda quando o tempo não ajudava. Às vezes acontece da gente ficar mais de um mês sem sol e eu não podia ficar parado porque as contas não param. Afirmou o vendedor. Hoje, ele já conseguiu maneiras de  driblar esse problema. Além de participação garantida nos eventos organizados pela empresa Fox Formaturas, Fabiano faz também presenças em eventos de diversas empresas que o chamam para descontrair o ambiente de trabalho com o seu mate: São
oportunidades que eu sou muito grato, inclusive, se precisar, é só chamar -brincou.

Perguntado sobre como surgem essas oportunidades, o comerciante explicou que tudo é na base da simpatia. O bom humor e a boa relação com a clientela faz com que os mesmos se tornem fiéis e busquem o serviço para outras ocasiões. 

Eu só compro com o Fabiano tem muito tempo, às vezes eu tô com sede mas espero até ele aparecer pra comprar - afirmou a estudante de 20 anos, Ingra Faria.

Hoje, além de formaturas, churrascos e presença em escritórios, Fabiano é chamado também para aniversários, e documenta tudo em seu instagram.

Apesar de todas as dificuldades que enfrenta, tendo também que tomar muitos remédios para aliviar a dor nas costas resultante do peso que carrega diariamente, Fabiano afirma que não pretende parar e que encontrou na venda de mate a sua verdadeira vocação:

Antes eu trabalhava por trabalhar, hoje eu amo a minha profissão. Eu não tenho muitas coisas, mas o que eu tenho veio do mate. É a minha vida.


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