Bruna Benevides e a força da primeira mulher trans a reconquistar seu lugar nas Forças Armadas

Bruna Benevides (Reprodução/Facebook)

Mateus Garcia 
O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo e os trans são os principais alvos das violências, com a expectativa de vida de 35 anos. Lutar para ocupar um espaço em uma das instituições mais hostis à sua presença é o um dos casos mais emblemáticos da história de Bruna Benevides, de 39 anos. Ela quer viver muito mais para mostrar que é possível enfrentar um mundo que não aceita sua liberdade. Ela não aceitou que um diagnóstico de “transexualismo” fosse motivo para uma aposentaria compulsória na Marinha e foi à Justiça para ser reintegrada e mudar um paradigma das Forças Armadas com a população trans no Brasil. 

Bruna sentiu na pele as dificuldades de ser rejeitada pela família do interior do Ceará e veio ao Rio de Janeiro para recomeçar sua vida do zero, com 17 anos, na esperança de ter novas oportunidades em uma cidade grande e cosmopolita. Fez concurso para a Escola de Aprendizes da Marinha e precisou de travestir de homem para sobreviver ao trabalho, apesar de considerar não ser possível esconder quem era, nem com tudo o que precisava para disfarçar. Naquela ocasião, o maior medo de Bruna e a de qualquer trans que se dispõe a esconder sua identidade para não sofrer com a humilhação de ser rejeitado, era voltar à marginalidade. Mas achou a força de amigos que conquistou para seguir com a transição para diminuir as características de gênero masculinas que não lhe pertenciam.  

As Forças Armadas reformavam (aposentavam) compulsoriamente quem era diagnosticado com “transexualismo” - o que por si só está errado, pois a forma correta é transexualidade - e proibia de continuar a exercer suas funções. Bruna não se conformou com essa situação, que outros já passaram e não tiveram sucesso e em dezembro de 2018 conseguiu uma liminar para voltar à ativa, já que no mesmo laudo em que acusava sua condição como transtorno, também afirmava que ela era saudável física e psicologicamente.

Enquanto ainda trava brigas para seguir a carreira militar, Bruna é nome importante para a comunidade LGBT do Rio de Janeiro. Ela é presidente do Conselho Municipal dos Direitos da População LGBT de Niterói, secretária de articulação política da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e vice-presidente da ONG Diversidade Niterói, a organizadora das Paradas LGBT do município. Como reconhecimento por sua atuação pelos Direitos Humanos da População Trans, ela ganhou, em 2016, o Diploma Mulher Cidadã, na Alerj, em 2017, o prêmio Inês Etienne Romeu da Câmara dos Vereadores de Niterói e, em 2019, o Prêmio Faz Diferença do O Globo na categoria Diversidade. 

Ela não poupa posts nas redes sociais para mostrar seu cotidiano no trabalho em palestras a ações das instituições em que se faz presente, além de fazer críticas ao governo em todas as instâncias e da própria comunidade LGBT com equívocos que são viralizados. Em seu blog no Medium (@brunagbenevides), escreve artigos para discutir temas pertinentes a comunidade para conscientização e melhora da discussão da complexidade das pessoas que são para além do binarismo.

Ela é casada com Gustavo e encontra nele parte da força necessária para não ceder aos percalços da vida. Ele abdicou de seus privilégios de homem hetero cis por um amor mais forte, mesmo que o preconceito venha a alcançá-lo. Eles, juntos, querem mostrar que o amor não é algo descartado na vida das pessoas trans e pode ser a fonte de renovação de qualquer perspectiva que possa existir no coração. Ao expor sua vida, deseja ser um referencial para outras trans, o que ela não teve na adolescência, e mostrar que todos podem ter uma vida digna com empenho profissional e com um amor para ter de companhia.

Quem conhece sua história, concorda que deve ser valorizada. 

A Benevides tem um dos discursos mais potentes e coerentes dentro do movimento. Ela é poderosa em todos os sentidos e inspira outres (sic) a serem da mesma forma. A luta dela em ser admitida pela Marinha, brigando até o fim é o que ela faz em tudo na vida. Principalmente quando se trata de nossas pautas. Ela é uma das pessoas que mais me representa. contou Jobson Camargo, amigo de militância de Bruna.

Ela não pensa em recuar de suas ações, apesar de um governo conservador, e viaja a convite de associações e universidades para a conversar sobre as questões pertinentes, como a recente ida à OAB de Santa Catarina discutir sobre a criminalização da homofobia. Que mais pessoas tenham acesso ao seu discurso para maior conscientização das questões de uma parte da população e seja motor de mudanças para a garantia plena de cidadania a quem é tão marginalizado. 

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