Do acidente ao pódio: a resistência na profissão do massagista Jorginho

Jorginho no treino do Flamengo com a bandeira tremulando atrás.
(Foto: Alexandre Vidal)

Da fábrica de azulejo ao estádio de Yokohama no Japão, Jorge Luiz Domingos, 65 anos, foi campeão mundial com a seleção em 2002 e, atualmente, é o massagista mais antigo do Flamengo. Com 19 anos, em 1971, Jorginho sofreu um grave acidente no punho durante o trabalho, na fábrica Klabin. Ele quase perdeu a mão esquerda e ficou cerca de cinco meses afastado. Com a necessidade de fazer sessões de fisioterapia, Jorginho se interessou pela profissão e, a convite do primo, se matriculou em um curso de massagista em Marechal Hermes. Hoje, há quase 40 anos no Flamengo, ele representa uma resistência da profissão no futebol, que tende ser substituída por fisioterapeutas. 

Na Portuguesa, começou a carreira como estagiário e, depois de efetivado, ficou por seis anos. Segundo ele, trabalhar em um clube pequeno é muito mais difícil pela falta de estrutura. Chegou ao Flamengo na categoria de base, aos 27 anos, quando o centro de treinamento (CT) ainda era na Gávea. Desde 1981 no clube, ele destacou a mudança na infraestrutura.

– Aqui era muito diferente. Eu lembro da história com o goleiro Paulo Victor. Ele se machucou e a gente tinha que socorrê-lo, não tinha jeito. Não tinha maca, não tinha nada. Botamos ele no carrinho e saímos empurrando. Aquilo deu o que falar danado, mas a gente tinha que socorrer o cara. (risos) – relembra ele.

Este episódio aconteceu em junho de 2015 quando o goleiro fraturou a fíbula em um treino e foi retirado do campo em um carrinho de mão.

Treino do Flamengo no Ninho do Urubu.
Na foto, Paulo Victor sai machucado.
Foto: Cezar Loureiro / Agência O Globo
As mudanças também se estenderam na função desde a sua chegada. Na década de 80, o massagista além de exercer seu cargo, também fazia as atuais atividades do enfermeiro e fisioterapeuta. Para Jorginho, o que não mudou foi a relação de pai para filho com jogadores. É comum que os atletas, por terem contato direto, desabafem sobre assuntos pessoais.

Essa proximidade é percebida também pelos jogadores. O ex jogador Zinho conviveu com o Jorge durante o tempo em que esteve na categoria de base e no profissional do Flamengo.

– O Jorginho sabe fazer o papel de psicólogo. Os massagistas viram um ouvido para um momento difícil na carreira de um atleta, que é quando ele está contundido e não está jogando. Eles são fundamentais para escutar o desabafo, o momento de dificuldade e para mostrar ao jogador como é importante se dedicar a recuperação. Jorginho é craque nisso. Passei muitos momentos de lesão com ele ao meu lado. Eu tenho uma gratidão eterna por esse profissional de uma capacidade, de um talento, de um profissionalismo enorme e de coração fora do comum. Por isso está há tanto tempo na profissão. É merecedor – disse.

Ter uma boa relação com os jogadores faz diferença, principalmente quando se trata da categoria de base, em que os meninos ainda estão em formação e ficam distantes das suas famílias. Zinho relembra o dia em que viajou, passou mal e quem esteve ao seu lado foi o massagista.

– A minha primeira viagem para o exterior foi para um torneio em La Paz, na Bolívia. Eu passei mal no avião e quem cuidou de mim por 24h foi o Jorginho. Foi fundamental pois eu era uma criança, tinha somente 12 anos e não tinha nenhuma experiência. Foi uma ajuda importantíssima num momento determinante da minha carreira. Ficou na minha memória. Todos os cuidados dele no avião e depois no hotel. As palavras e carinho me confortaram – conta o ídolo rubro-negro.

A ascensão do Jorginho da categoria de base para o profissional não foi fácil. O massagista trabalhava no time juvenil quando o responsável pelo time profissional viajou para Arábia e surgiu a oportunidade de trabalhar no time principal. Nesta época, Jorginho ficou doente e precisou se ausentar por três meses. Quando retornou ao clube, foi escalado para o juvenil. Com o tempo foi convidado novamente ao profissional.

Outro momento em que a categoria de base antecedeu uma grande experiência foi na seleção brasileira. Jorginho trabalhava no sub-17 da CBF quando precisaram de um massagista no time principal. Indicado pelo preparador físico, Jorge chegou ao profissional para a Copa do Mundo de 2002. Ele lembra o quanto sofreu nas eliminatórias e que a seleção viajou ao Japão sem credibilidade, mas garante que nunca duvidou da capacidade do elenco. Ele reconhece o Mundial como um dos grandes momentos da carreira.

Jorginho, no treino do Flamengo, afirma: “Entre os quatro clubes cariocas, o Flamengo é sem dúvida o time que mais tem a cara do Rio”
(Foto: Alexandre Vidal)
Campeão Mundial da Copa da FIFA. Quatro brasileiros. Três Copas do Brasil e Dezenove Cariocas. Esse é o peso que o Jorginho carrega no pescoço. Mesmo com tantas vitórias, mantém a humildade quando diz que gosta de viver no anonimato. Nos jogos fora de casa em que não é escalado, gosta de assistir as transmissões no bar da Ilha do Governador, tomando cerveja. Apesar de ser reconhecido pelas pessoas, prefere não conversar sobre questões internas do elenco.

Fábio Menezes, presidente da SONAFE – Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e Atividades Físicas, explica que os massagistas de futebol ainda se mantém no cargo por ser um funcionário de carreira, por muitos anos de trabalho nos clubes.

– O fisioterapeuta acaba focando na massagem terapêutica na questão da lesão e quando é necessária uma mensagem relaxante em um pós jogo, ele acaba não querendo fazer. Se tem a figura do massagista, ele entra nesse meio campo. Gradativamente a figura do massagista vai entrar em desuso porque o fisioterapeuta tem essa capacidade de estar fazendo a mesma coisa que o massagista faz e além de outras coisas da sua função – explica.

Massagistas históricos como Jorginho não são novidades no Brasil. O país tem uma safra desses profissionais que marcaram época em clubes e na seleção brasileira. Temos exemplos como Pai Santana no Vasco, além de Mário Américo e Nocaute Jack na seleção, ambos campeões do mundo. O jornalista Carlos Eduardo Mansur vê a duração das carreiras e o conhecimento sobre o esporte e o dia-a-dia como semelhança na trajetória dos profissionais.

– O que eu consigo enxergar de traços em comum na carreira deles é o fato de serem personagens que adquiriram uma enorme identidade com clubes e seleção por ficarem um longo tempo em seus cargos. Além disso, mesmo sem ter uma formação técnica em futebol ou medicina, por terem tanta vivência e conhecerem tão bem onde trabalhavam, eles ganhavam uma sensibilidade em ajudar comissões técnicas em tomadas de decisões e perceberem questões de relacionamento de elenco – afirma.

Com duas filhas e cinco netos, Jorge conta que a família inteira é rubro-negra. Segundo ele, torcer para o Flamengo é sinônimo de alegria e carnaval. Para ele, entre os quatro grandes clubes, o Flamengo é a cara do Rio, sua outra paixão. Nascido em Água Santa e morador da Ilha do Governador, ele declara que não se vê fora da cidade.

– Chegar ali na Lapa a noite, tudo cheio, é bom demais. Não tem coisa melhor que o Rio, nem a violência faz a gente sair daqui. – afirma.

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