Jorginho no treino do Flamengo com a bandeira tremulando atrás.
(Foto: Alexandre Vidal)
Na Portuguesa, começou a carreira como estagiário e, depois de efetivado, ficou por seis anos. Segundo ele, trabalhar em um clube pequeno é muito mais difícil pela falta de estrutura. Chegou ao Flamengo na categoria de base, aos 27 anos, quando o centro de treinamento (CT) ainda era na Gávea. Desde 1981 no clube, ele destacou a mudança na infraestrutura.
– Aqui era muito diferente. Eu lembro da história com o goleiro Paulo Victor. Ele se machucou e a gente tinha que socorrê-lo, não tinha jeito. Não tinha maca, não tinha nada. Botamos ele no carrinho e saímos empurrando. Aquilo deu o que falar danado, mas a gente tinha que socorrer o cara. (risos) – relembra ele.
Este episódio aconteceu em junho de 2015 quando o goleiro fraturou a fíbula em um treino e foi retirado do campo em um carrinho de mão.
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| Treino do Flamengo no Ninho do Urubu. Na foto, Paulo Victor sai machucado. Foto: Cezar Loureiro / Agência O Globo |
Essa proximidade é percebida também pelos jogadores. O ex jogador Zinho conviveu com o Jorge durante o tempo em que esteve na categoria de base e no profissional do Flamengo.
– O Jorginho sabe fazer o papel de psicólogo. Os massagistas viram um ouvido para um momento difícil na carreira de um atleta, que é quando ele está contundido e não está jogando. Eles são fundamentais para escutar o desabafo, o momento de dificuldade e para mostrar ao jogador como é importante se dedicar a recuperação. Jorginho é craque nisso. Passei muitos momentos de lesão com ele ao meu lado. Eu tenho uma gratidão eterna por esse profissional de uma capacidade, de um talento, de um profissionalismo enorme e de coração fora do comum. Por isso está há tanto tempo na profissão. É merecedor – disse.
Ter uma boa relação com os jogadores faz diferença, principalmente quando se trata da categoria de base, em que os meninos ainda estão em formação e ficam distantes das suas famílias. Zinho relembra o dia em que viajou, passou mal e quem esteve ao seu lado foi o massagista.
– A minha primeira viagem para o exterior foi para um torneio em La Paz, na Bolívia. Eu passei mal no avião e quem cuidou de mim por 24h foi o Jorginho. Foi fundamental pois eu era uma criança, tinha somente 12 anos e não tinha nenhuma experiência. Foi uma ajuda importantíssima num momento determinante da minha carreira. Ficou na minha memória. Todos os cuidados dele no avião e depois no hotel. As palavras e carinho me confortaram – conta o ídolo rubro-negro.
A ascensão do Jorginho da categoria de base para o profissional não foi fácil. O massagista trabalhava no time juvenil quando o responsável pelo time profissional viajou para Arábia e surgiu a oportunidade de trabalhar no time principal. Nesta época, Jorginho ficou doente e precisou se ausentar por três meses. Quando retornou ao clube, foi escalado para o juvenil. Com o tempo foi convidado novamente ao profissional.
Outro momento em que a categoria de base antecedeu uma grande experiência foi na seleção brasileira. Jorginho trabalhava no sub-17 da CBF quando precisaram de um massagista no time principal. Indicado pelo preparador físico, Jorge chegou ao profissional para a Copa do Mundo de 2002. Ele lembra o quanto sofreu nas eliminatórias e que a seleção viajou ao Japão sem credibilidade, mas garante que nunca duvidou da capacidade do elenco. Ele reconhece o Mundial como um dos grandes momentos da carreira.
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| Jorginho, no treino do Flamengo, afirma: “Entre os quatro clubes cariocas, o Flamengo é sem dúvida o time que mais tem a cara do Rio” (Foto: Alexandre Vidal) |
Fábio Menezes, presidente da SONAFE – Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e Atividades Físicas, explica que os massagistas de futebol ainda se mantém no cargo por ser um funcionário de carreira, por muitos anos de trabalho nos clubes.
– O fisioterapeuta acaba focando na massagem terapêutica na questão da lesão e quando é necessária uma mensagem relaxante em um pós jogo, ele acaba não querendo fazer. Se tem a figura do massagista, ele entra nesse meio campo. Gradativamente a figura do massagista vai entrar em desuso porque o fisioterapeuta tem essa capacidade de estar fazendo a mesma coisa que o massagista faz e além de outras coisas da sua função – explica.
Massagistas históricos como Jorginho não são novidades no Brasil. O país tem uma safra desses profissionais que marcaram época em clubes e na seleção brasileira. Temos exemplos como Pai Santana no Vasco, além de Mário Américo e Nocaute Jack na seleção, ambos campeões do mundo. O jornalista Carlos Eduardo Mansur vê a duração das carreiras e o conhecimento sobre o esporte e o dia-a-dia como semelhança na trajetória dos profissionais.
– O que eu consigo enxergar de traços em comum na carreira deles é o fato de serem personagens que adquiriram uma enorme identidade com clubes e seleção por ficarem um longo tempo em seus cargos. Além disso, mesmo sem ter uma formação técnica em futebol ou medicina, por terem tanta vivência e conhecerem tão bem onde trabalhavam, eles ganhavam uma sensibilidade em ajudar comissões técnicas em tomadas de decisões e perceberem questões de relacionamento de elenco – afirma.
Com duas filhas e cinco netos, Jorge conta que a família inteira é rubro-negra. Segundo ele, torcer para o Flamengo é sinônimo de alegria e carnaval. Para ele, entre os quatro grandes clubes, o Flamengo é a cara do Rio, sua outra paixão. Nascido em Água Santa e morador da Ilha do Governador, ele declara que não se vê fora da cidade.
– Chegar ali na Lapa a noite, tudo cheio, é bom demais. Não tem coisa melhor que o Rio, nem a violência faz a gente sair daqui. – afirma.


