Engenheiro agrônomo resgata a relação com o alimento orgânico na cidade do Rio

Por Isabela Carvalho e Gabriela Cunha

Júlio César Barros em visita a uma das hortas do programa


O gerente de Agroecologia e Produção Orgânica da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, Júlio César Barros, de 54 anos, utiliza o aprendizado que obteve de seu avô sobre plantio e cuidado com a terra para tornar o alimento orgânico acessível e, assim, resgatar a referência rural na cidade. O engenheiro agrônomo é o coordenador do projeto da prefeitura chamado Hortas Cariocas, que estimula a produção orgânica em comunidades carentes e escolas municipais desde 2006.

Em sua infância, Barros adquiriu um vasto conhecimento sobre produção agrária por causa de seu avô que era proprietário de uma fazenda em Minas Gerais. Lá, ele entrou em contato com o conhecimento prático e tradicional agrário, a partir da vivência entre muitas espécies de plantas. Para Júlio César, as pessoas que vivem em áreas urbanas da cidade do Rio perderam sua relação com a origem dos alimentos e o Hortas Cariocas pretende retomá-la.

Durante sua experiência de 22 anos na Secretaria Municipal do Meio Ambiente, Júlio César já participou da fiscalização de áreas para reflorestamento mas, hoje, se atenta apenas às hortas. Nelas, são cultivadas beterraba, alface, repolho, temperos, abacaxi, inhame e muitas outras plantas alimentícias e frutas.

O programa Hortas Cariocas já ajudou na formação de 42 hortas espalhadas pela cidade do Rio. Estima-se que, juntas, as pequenas plantações produzam cerca de 70 toneladas de alimentos no ano de 2019. Além disso, o programa tem em torno de 200 produtores parceiros, pessoas que cuidam da produção orgânica e do espaço e moram nas comunidades onde ficam as hortas.

Barros afirmou que o projeto ajuda não apenas os hortelãos, que recebem uma bolsa-auxílio de R$450, e o encarregado, cuja bolsa é de R$570 reais, mas também atende aos moradores com alimentos sem químicos e de baixo custo. Isso é percebido pela comunidade local, que o trata com apreço.

- Quando eu era fiscal, eu entrava na comunidade e ninguém falava comigo. Hoje, se eu subo com o carro da prefeitura e todos me cumprimentam. Eles sabem que o trabalho das hortas traz muitos benefícios para os moradores - contou.

O engenheiro agrônomo disse que uma das intenções do projeto da prefeitura é mostrar que não há necessidade da utilização de químicos nas plantações para conter pragas. Ele afirma que, durante sua graduação no curso de Agronomia na Universidade Federal de Viçosa, a maior parte de seu aprendizado não contemplava as alternativas orgânicas.

- Isso que fica atrás das folhas é pulgão. Mas uns dias atrás, eu encontrei joaninhas se alimentando dessa praga, o que mostra que o sistema se completa. Na faculdade, a gente aprendia sobre as pragas junto dos venenos para matá-las - disse.

Metade da produção que é colhida nas hortas da prefeitura são vendidas em pequenas feiras realizadas pelos empregados da horta, que também ficam com o lucro. A outra parte é doada para entidades beneficentes no entorno das plantações. 

Orlando de Almeida Ribeiro, de 71 anos, é o responsável pela horta do Morro da Formiga, na Tijuca. A horta da Formiga doa grande parte da sua produção. A doação mais recente foi para a ONG Gastromotiva, que atende a população de rua da cidade. Seu Orlando, como é conhecido, começou  o projeto Hortas Cariocas ao lado de Júlio César em 2008, depois que o programa Guardião dos Rios, também da prefeitura, acabou e Ribeiro ficou desempregado. 


Horta Carioca no Morro da Formiga


O propósito é que, eventualmente, as hortas possuam um lucro maior do que a quantia concedida pelo município, para, então, serem emancipadas e deixarem de receber a soma. O governo continua contribuindo com sementes, ferramentas, adubo, terra e outros materiais.

O projeto Hortas Cariocas também está presente em escolas e creches municipais, com o objetivo de ajudar na educação ambiental das crianças e na merenda escolar. Nesses espaços, os alunos plantam, cuidam e consomem a produção orgânica. Por enquanto, 23 escolas e creches já participam da iniciativa pedagógica de educação alimentar para estudantes de três a 15 anos. Segundo Júlio César, essa metodologia inverte o fluxo do conhecimento, uma vez que as crianças e adolescentes aprendem a se alimentar no colégio e passam as informações à família, em casa.

A escolha dos locais das hortas dá preferência a terrenos da prefeitura ociosos e abandonados. Em alguns casos, há a presença de moradores de rua e dependentes químicos. Sônia Miranda, de 78 anos, encarregada da horta do Cosme Velho, conta que o terreno utilizado era invadido por usuários de drogas e era depósito de carroças de ambulantes e entulho.

De acordo com Sônia, o Hortas Cariocas é o melhor programa da Prefeitura do Rio atualmente. A hortelã, que é agente de turismo aposentada, conta que todas as vezes que solicitou ajuda ao governo municipal, foi atendida, desde a limpeza do terreno, até a instalação de luz. Sônia conheceu Júlio César quando ele foi visitar a horta do Cosme Velho, localizada na Praça São Judas Tadeu, e chamá-la para participar do projeto.

A horta do Cosme Velho é uma das mais conhecidas participante da iniciativa, especialmente por causa de sua posição ao lado da subida do Corcovado, que dá acesso ao Cristo. Apesar disso, lá não há produção e não fica em uma comunidade, características presentes nas pequenas plantações do Hortas Cariocas. Tanto Sônia quanto Júlio César falam do modelo do Cosme Velho como propaganda do programa para quem não o conhece, turista ou carioca, já que as hortas em favelas dificilmente recebem visitantes.

- A horta daqui é o departamento de marketing da prefeitura - brincou Sônia.

Em setembro de 2019, o programa Hortas Cariocas ganhou menção honrosa no prêmio internacional concedido pelo Pacto de Milão na categoria de Sistemas Alimentares Urbanos. Esse pacto é um acordo entre países sobre políticas de alimentação urbana apoiado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e que busca replicar exemplos de sustentabilidade mundo afora. O projeto do município do Rio concorreu com outros 104 iniciativas das principais cidades que assinaram o acordo.

A Gerência de Agroecologia e Produção Orgânica da prefeitura possui um prédio, que é o Centro de Agroecologia e Produção Orgânica (CEMAPO), no Parque Madureira. No edifício, são realizados cursos sobre plantio, compostagem e assuntos relacionados ao trabalho agrícola livre de químicos em pequena escala. Também são oferecidos cursos do SENAC, como o curso de camareira e o de artesãos, em espaço cedido pela gerência.

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