Moto Tai e a cena dos Slams cariocas


Descalça, com o microfone na mão e com a poesia na ponta da língua, Moto Tai entrou em um dos maiores festivais culturais do Rio de Janeiro, na Praça Mauá. Ela recitou em uma das mesas do Festival Geração do Amanhã que abordava dois objetivos da ONU: a redução da desigualdade e a educação de qualidade. A artista acredita que o motivo de ter sido convidada para o evento é uma de suas apresentações no Youtube,  que soma mais de mil visualizações. Ana Paula Brasil, uma das curadoras do Festival, contou que a equipe chegou até ela através do Slam das Minas, um dos projetos de poesia falada dos quais Taiane participa.


 Em sua conta no Instagram, a jovem de 27 anos desabafou sobre o alívio de dizer suas palavras que representam sua vivência como mulher negra, o que lhe traz motivação para ocupar espaços importantes como esse. Taiane Ribeiro, natural do Centro do Rio, concilia as apresentações artísticas com as entregas de moto que faz para as redes de delivery Ifood e Loggi, o que explica o seu nome artístico. Para conciliar as duas ocupações profissionais, a artista define os horários que irá trabalhar de moto em função dos compromissos dos Slams. “Eu tento trabalhar de segunda à sexta em dois horários. Se eu tiver algum Slam à noite, aí eu não trabalho e vou para o Slam”, contou.

O começo da sua trajetória no Slam foi em 2018, após se arrepiar assistindo a final do Slam das Minas RJ, no Museu de Arte do Rio. O Slam das Minas é realizado exclusivamente por mulheres e vem ganhando espaço nas ruas do Rio de Janeiro desde 2013. Letícia Brito, uma das integrantes da produção do movimento na cena carioca, conta que conheceu Moto Tai em eventos de militância LGBTIQ+ e acabaram descobrindo morar perto, o que facilitou a aproximação das duas.  “A Moto Tai tem amadurecido suas performances e falado seus textos de forma muito didática e nítida. Ela fala de suas próprias vivências de uma forma muito forte e legítima”, relatou Letícia.
A sua primeira poesia recitada foi “Andar Lento” no Slam Ágora, no início de 2018. Essa composição traz a questão de a artista ter o costume de se apresentar descalça: “Com toda ancestralidade, marchamos para a liberdade. E de sapato, chinelo rasgado, mesmo se fosse descalço, vocês vão ver que agora ninguém fica calado.” Para a slammer, estar descalça nesses momentos lhe traz forças para exteriorizar tudo aquilo que dói. 
Antes de iniciar no Slam, Taiane trabalhou com telemarketing, em um bar no Centro da cidade, no Museu do Amanhã e no VLT Carioca. Hoje o seu maior objetivo profissional é poder ter um retorno financeiro que lhe permita viver exclusivamente da poesia. “O que ganho com a poesia ainda é bem pouco comparado ao trabalho com entrega. Ainda bem que eu gosto de andar de moto”, contou Moto Tai.
A Lei do Artista de Rua entrou em vigor no Rio de Janeiro em 2012 regulamentando o direito da expressão artística em espaços públicos. O autor da lei e vereador do PT Reimont afirmou que apesar de ser uma garantia constitucional, há gestores da segurança pública na cidade que não tem consciência ou compromisso com a lei. Em caso de tentativa de repressão, Reimont aconselhou: “É importante que o artista de rua leve sempre com ele uma cópia do texto da nossa lei (Lei nº 5.429, de 5 de junho de 2012, a "Lei do Artista de Rua"), especialmente quando for se apresentar nos espaços públicos. Se o argumento não for eficiente, a pessoa deve buscar identificar o agente (nome e/ou órgão onde trabalha) e apresentar queixa no Ministério Público ou na Defensoria Pública.” 
A slammer foi campeã da etapa classificatória de 2019 do Slam Vila Isabel, Slam Praça Preta, Slam Lestransa, Slam Bxd e da etapa do mês de dezembro no circuito Slam das Minas RJ de 2019. Os starts para escrever vêm de situações que já viveu ou presenciou e as letras são carregadas de militância. A artista contou que é comum usar o bloco de notas no processo de criação artística, ela anotações nesse espaço e depois trabalha para adicionar ritmo e fluidez ao texto. 
Sobre as contribuições que a ascensão do movimento de Slams trouxe, Taiane aponta o fato de que temas tratados da mesma maneira pela mídia agora são abordados por pessoas marginalizadas que nunca pensaram estar em destaque em uma sociedade preconceituosa. Mas ao mesmo tempo que reconhece esses avanços, a jovem tenta quebrar o tradicionalismo dentro do Slam em abordar em sua maioria temas relacionados à consciência racial e questões políticas.  
Em “Como as mulheres transam?” a slammer começa a letra sem rodeios: “Eu vou me dirigir somente a elas, porque eu não vim nesse mundo para ser didática com homem hétero (...) Ooo Moçaa! elas se entrelaçam, se acham, se encaixam! Numa frequência que talvez só abalos sísmicos ultrapassam.” Taiane Ribeiro acredita que se propôr a falar sobre como as mulheres transam, é uma prova de que o Slam não precisa ser um espaço para falar apenas de dores e que deve ser um ambiente com discursos plurais. 

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