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| Pescador em um fim de tarde na praia de Copacabana. O carioca contempla o futuro incerto da cidade. (Foto: Fernando Maia) |
O
carioca é antes de tudo um forte. A adaptação da célebre frase do escritor
Euclides da Cunha se torna apropriada diante da crise econômica que o Rio de
Janeiro enfrenta. Se as OlimpÃadas e a Copa do Mundo não foram suficientes para
trazer prosperidade à ex capital do Brasil, alguns cidadãos driblam o clima de declÃnio
econômico, agravado pela escalada da violência, na base do talento. Eles
rejeitam o lugar conformista da queixa. O Inspira
Rio conta as histórias de iniciativas próprias que transformaram figuras
anônimas em cidadãos inspiradores.
São
anônimos como a pastora protestante
Lusmarina, que luta contra a intolerância religiosa, sobretudo, as religiões de
matriz africana. Ou o galerista Paulo Branquinho, que revitalizou a rua Morais
e Vale, na Lapa, abrindo uma galeria de arte. Já o massagista Jorge Luiz
Domingos, o Jorginho, sofreu um acidente grave, mas chegou ao pódio da Copa do
Mundo de 2002. E a slammer e moto frete Moto Tai domina a
cena carioca de slams com suas poesias faladas que abordam temas como racismo e
machismo.
Há, igualmente,
iniciativas ligadas a saúde e educação. Júlio César Barros, criador do projeto
Hortas Cariocas, resgatou a referência rural na cidade, tornando o alimento
orgânico acessÃvel. Fred é um
engenheiro que driblou as dificuldades do mercado profissional, criando o
próprio negócio na área da Educação. Contamos, também, a história de um
personagem clássico do Rio de Janeiro. Fabiano, vendedor de mate há 15 anos, mostra
os desafios e as oportunidades dentro da profissão, que hoje é um dos patrimônios
culturais da cidade.
O professor da Casa de
Rui Barbosa e especialista em estudos urbanos, Antônio Herculano Lopes, expõe
as razões para o estilo de vida do carioca, marcado por uma superação diária.
“Há uma série de fatores para construir a figura do carioca. Existe o fato de
se tratar de uma cidade litorânea, com o mar e a brisa. E outro fator é uma
cultura de matriz africana. Os africanos tendem a ser menos rÃgidos no
enfrentamento”, explica, lembrando dos passos esquivos da capoeira.
De acordo com Lopes, o
estereótipo do malandro ainda habita o imaginário da população do Rio de
Janeiro. “O malandro era o cara que não brigava de frente. Na época, não era um
trabalhador. O malandro só se inseriu no mercado de trabalho quando, já no
século XX, Chico Buarque escreve as suas canções. Hoje, esse personagem é quase
mÃtico.”
Mas hoje a realidade
parece mais difÃcil para o povo da ex-capital federal. Dados do Instituto
Brasileiro de Geografia e EstatÃstica (IBGE) mostram que o estado do Rio só
ficou atrás de Roraima, no aumento da extrema pobreza. Os dados analisados
comparam junho deste ano ao mesmo perÃodo de 2018 e revelam um incremento de
10,5% à taxa de pessoas esquecidas pelo poder público do estado. Além da crise
econômica, os problemas conhecidos de longa data: violência generalizada, saúde
pública deficiente e o sistema de transportes falho. Na série de reportagens a
seguir, apresentamos a história de alguns moradores do Rio que, cada um à sua
forma, ultrapassam as barreiras da vida cotidiana.
