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| Pastora Lusmarina abraça mãe Conceição d´Lissá |
Na última sexta-feira, dia 27, aconteceu um encontro inter-religioso no barracão Kwe Cejá Gbé, da mãe Conceição d´Lissá, onde estavam presentes o cônsul dos Estados Unidos, o babalaô Ivanir dos Santos, a pastora Lusmarina, o procurador da República José Júlio Júnior e outras lideranças religiosas. O intuito dessa reunião era discutir a situação de intolerância religiosa no Rio de Janeiro. A base da conversa foi ouvir vítimas, que sofreram intolerância religiosa, para uma compreensão maior dos atos sofridos com as religiões de matriz africana.
— É extremamente importante que as comunidades internacionais tomem ciência dos crimes religiosos que vêm crescendo cotidianamente no Estado Brasileiro. A visita do cônsul americano à um dos templos religiosos de matriz africana é de extrema relevância, pois ganha destaque internacional e volta os olhos do mundo para os casos de intolerância religiosa que crescem desenfreadamente no Brasil — afirmou o babalaô Ivanir dos Santos.
Ivanir continuou dizendo sobre a importância desse encontro ter acontecido próximo a Caminhada em Defesa da Liberdade religiosa, que aconteceu no domingo, dia 14, na orla de Copacabana.
— Não podemos nos esquecer que a visita aconteceu semanas depois da 12ª Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, um dos maiores atos inter-religiosos do mundo que busca construir a paz e promover os diálogos em prol das liberdades — completou ele.
Este não foi o primeiro encontro inter-religioso que a pastora participou. Ela frequenta essas reuniões desde os anos 90, quando ainda trabalhava no Instituto de Estudos da Religião (ISER). Ela fez parte da primeira reunião de grupo inter-religioso do Rio de Janeiro, que aconteceu no próprio ISER, onde diferentes religiões se juntaram para conversar sobre respeito a fim de evitar guerras com motivação religiosa. Para dar continuidade a esse movimento, todo mês um representante de uma religião organizava um evento religioso e os membros iam nas celebrações uns dos outros. Lusmarina saiu do ISER em 1995 e foi morar fora do Brasil, mas o grupo continuou com a programação.
Depois de morar na França, Estados Unidos e Suíça, a pastora voltou para o Brasil no final de 2012 e não tinha noção da guerra religiosa que estava acontecendo no país. Foi a partir desse choque que ela assumiu a presidência do Conselho de Igrejas Cristãs do Estado do Rio de Janeiro (CONIC-Rio), em 2013. “Foi muito desconcertante para mim ver aquilo que estava acontecendo no Brasil”, disse.
A então presidente do CONIC-Rio, Pastora Lusmarina Campos Garcia, lançou a ideia de promover a reconstrução do barracão, com apoio da diretoria, e em conjunto com a Comissão de Combate à intolerância Religiosa (CCIR), que tem como interlocutor o Ivanir dos Santos, quem vem há anos chamando à razão da sociedade para a falta de respeito sofridos pelas religiões de matrizes africanas.
— Um dia na minha casa e vi uma notícia a respeito do terreiro da mãe Conceição d’Lissá, que tinha sido queimado por grupos evangélicos neopentecostais radicais. Na notícia, dizia que quem fez isso, fez em nome de Jesus Cristo. Então eu, na presidência desse conselho, disse: Se em nome de Jesus Cristo eles destroem, em nome de Jesus Cristo nós vamos reconstruir — comentou a pastora.
Antes de ter sido incendiado, o barracão da mãe Conceição d´Lissá já tinha sido invadido oito vezes. Mas ele não foi o único terreiro incendiado e muito menos o primeiro de violência religiosa. No Brasil, quase todos os dias sai uma notícia nova sobre intolerância contra religiões de matriz africana. Segundo o babalaô Ivanir dos Santos, mais de 200 terreiros estão ameaçados em todo o estado.
A campanha para arrecadar fundos para reconstrução do barracão foi iniciada, mas pouco tempo depois foi interrompida pois houve uma nova eleição do CONIC-Rio e o presidente eleito, juntamente com a nova diretoria, não havia considerado este projeto uma prioridade, sendo assim, o plano ficou paralisado por aproximadamente um ano. Somente em 2017 retomaram a ideia quando a Igreja Cristã de Ipanema, através da atuação do pastor Edson Fernando, se mobilizou e arrecadou fundos para que o compromisso assumido, pudesse ser cumprido. Um casal de arquitetos, membros da igreja, doou uma quantia de R$ 10 mil, após uma visita ao terreiro. No total, foram arrecadados pela igreja cerca de R$12 mil.
— A pluralidade faz parte da criação de Deus e também de uma sociedade democrática. Para viver os valores de uma democracia e para viver os valores de uma fé cristã, a gente tem que ser capaz de conviver uns com os outros e mais do que tolerar uns aos outros, a gente tem que ser capaz de apreciar uns aos outros. Foi nessa perspectiva que eu tomei essa atitude — contou Lusmarina.
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| Pastora visita o barracão da mãe Conceição d´Lissá |
A atitude da pastora não foi bem aceita por parte da comunidade evangélica. As milhares de mensagens de apoio que ela recebe são, majoritariamente, de pessoas que se afastaram da igreja por não concordarem com as questões morais que igreja prega ou por não acharem certo o julgamento dos cristãos com as outras religiões.
— A paróquia que eu sou membro é belíssima e super bem construída, mas as pessoas de lá ficaram chateadas comigo porque eu fiz campanha para arrecadar fundos para reconstruir um terreiro, mas não ajudei a levantar fundos para trocar o vitral da Igreja. Mas o que acontece é que as pessoas não tem a mínima ideia de quais são as condições de um terreiro. Elas deveriam conhecer melhor a realidade de outras religiões para poder até ficar chateado comigo ou não.
Além de abraçar a luta contra a intolerância religiosa, a pastora está na linha de frente na questão do aborto no Brasil. No começo de agosto de 2018, a pastora falou publicamente sobre a descriminalização do aborto durante uma audiência pública realizada no Supremo Tribunal Federal (STF) e foi aplaudida de pé pela maioria que estava presente no plenário. Representando o ISER, Lusmarina defendeu um estado laico e políticas públicas baseadas no conhecimento.
Para a pastora, o aborto é uma questão de saúde pública e não deve ser resolvida com o direito penal e nem pela Bíblia, “sobretudo por uma leitura enviesada por interesses masculinos”.
Tanto a atitude de reconstruir o terreiro quanto a fala no STF defendendo a descriminalização do aborto repercutiu nas redes sociais e fez com que a pastora ganhasse rótulos como “pastora dos gays, pretos e putas”. Além de ter sido muito xingada nos comentários das publicações das notícias e considerada “traidora” por muitos evangélicos.
Lusmarina chegou a fazer um registro na delegacia contra um youtuber que a xingou de “vadia” e “vagabunda” e ainda disse que ela “merecia muito tapa na cara”. Para a pastora, esse tipo de discurso incita a violência e, por isso, resolveu fazer um registro na polícia para que eles retirassem o vídeo da internet.
— Há um traço de racismo muito profundo nesta guerra religiosa que o Brasil vêm sofrendo nos últimos anos. As religiões mais afetadas são o candomblé e a umbanda, que são majoritariamente compostas por pessoas negras. Os protestantes têm uma dificuldade muito grande com os rituais, com a música e com jeito africano de ser. “Essas religiões sempre foram consideradas do diabo".

