Produtor cultural revitaliza endereço histórico carioca

Por Gustavo Zeitel


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O galerista Paulo Branquinho em seu espaço cultural na Lapa. (foto: acervo pessoal)


Paulo Branquinho, de 53 anos, mudou o cenário da rua Moraes e Vale, na Lapa, região da boemia carioca por intermédio da arte. O produtor cultural trocou o conforto do Leblon por um antigo cortiço, que hoje, além de ser a sua casa, é a galeria Paulo Branquinho. A rua é um endereço histórico. Na Moraes e Vale, moraram Chiquinha Gonzaga, Manuel Bandeira e Madame Satã. Por muito tempo, a região esteve decadente. “Aqui, tinha de tudo. Cortiço, boca de fumo, prostituição... As pessoas faziam sexo e necessidades na rua”, disse Branquinho. Hoje, o espaço está no mapa cultural da cidade, e o galerista é figura conhecida na produção de exposições. Em setembro, nove alunos do professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage Gianguido Bonfanti exibiram trabalhos a partir de modelos vivos.

Nascido em uma família de artistas, Paulo Branquinho sempre almejou trabalhar com produções culturais. O produtor trocou o bairro do Leblon pela Lapa, após um período de desilusões amorosas. A atual empreitada de Paulo Branquinho é o bistrô do Gato, pequeno restaurante onde os visitantes podem experimentar quitutes e drinques, enquanto apreciam as obras expostas. “A ideia surgiu da percepção de que o movimento é noturno. À noite, 100 a 150 pessoas entram aqui”, ele explicou.

Na abertura da galeria, em 2016, uma grande mobilização artística foi organizada ao longo da rua. “Foram 128 artistas. Gente do Theatro Municipal, bandas de rock e até música cigana. Tinha de tudo.”, comentou Branquinho.

Nascido em Aracaju, José Arnulfo, de 69 anos, é um dos artistas da exposição dos alunos do Parque Lage. As obras de Arnulfo apenas sugerem os modelos, com suaves pinceladas de tinta guache, que se contrastam nas cores amarelo e preto. O pintor chegou ao Rio, depois de o pai ser transferido. Os primeiros passos de Arnulfo tiveram grande êxito. “Em 1966, ganhei uma competição de esculturas em Copacabana. O vencedor iria competir na França. Acabei ficando em sexto lugar.”

Arnulfo quis estudar Belas-Artes, mas os pais não deixaram. Formou-se em administração e divide-se entre o trabalho de artista e o emprego de programador visual em Furnas, onde já fez uma exposição. Arnulfo também apresentou trabalhos na galeria M.Blois, em Ipanema.

Já Gustavo Alves, de 50 anos, concilia a rotina de jornalista político com a paixão pelas artes plásticas. Há três anos, foi chamado para participar do evento que inaugurou a Galeria Paulo Branquinho. “Era uma área destruída. O Paulo Branquinho lutou contra tudo e contra todos.” Na exposição dos alunos do Parque Lage, Alves escolheu pintar com tinta guache. “As cores ainda têm brilho por muito tempo depois e posso trabalhar com a densidade da tinta.” O pintor ainda lembrou da dificuldade de encontrar tempo para se dedicar às pinturas. “Hoje, o tempo que eu tenho é quarta-feira à noite.”

Alves tem o cuidado de não misturar as duas profissões. “O leitor não merece isso”, comentou. Por outro lado, reconhece que todo trabalho artístico, de certa forma, está articulado à política. O jornalista já expôs seus quadros em outras cidades, como Belo Horizonte e Porto Alegre.

No momento, Paulo Branquinho prepara o 5º Festival de Esculturas do Rio, que ocorrerá no ano que vem, de agosto a setembro. O festival ocupa importantes espaços da rota cultural da cidade, como o Paço Imperial, Centro Cultural dos Correios e o Museu de Belas-Artes. O próximo desafio é fazer com que os artistas estrangeiros possam criar as esculturas no Rio. O transporte é caro, e a realização das esculturas pode criar uma interação com o público.

Em outubro, o espaço recebeu uma exposição com a curadoria de Umberto França. A galeria já expôs nomes de peso desde a abertura: Gonçalo Ivo, Reinaldo do Rego Macedo, Luiz Aquila e Gonçalo Ivo. Mas Branquinho alertou: “Um artista menos conhecido terá sempre o mesmo tratamento que uma pessoa menos conhecida.” Toda a mobilização artística é feita sem a ajuda da Secretaria de Cultura. “Quero fazer a Cultura acontecer.”



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