Por: Vinícius Nobrega
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| (FOTO: Guto Costa) |
Tiee é cantor, compositor e nasceu em São Gonçalo, cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Escreveu mais de 200 canções. É o autor de sucessos como “Climatizar”, “Som do Tambor”, gravados por Ferrugem, e “Cancún”, cantada por Thiaguinho. Autodidata, aprendeu a tocar violão, cavaquinho e banjo nas rodas de samba que frequentava com o pai. Além disso, músicas interpretadas pelo próprio autor, como “Modo Avião”, “Porradão” e “Fernando de Noronha” não saem da boca do povo carioca, sempre apaixonado por samba.
O samba é um patrimônio cultural da cidade do Rio de Janeiro. Desde as festas no quintal da Tia Ciata, no início do século XX, até o pagode armado no Cacique de Ramos, onde passaram nomes como Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão e Jovelina Pérola Negra, o ritmo é celebrado na Cidade Maravilhosa e revela ícones admirados pela cultura local. O respeito por esses grandes nomes continua intacto, mas nos últimos tempos, com a benção desses sambistas, um grupo de jovens chegou para tomar conta e manter a chama do samba acesa.
Artistas como Ferrugem, Thiago Soares, Vou pro Sereno e Dilsinho estão em evidência não apenas no Rio de Janeiro, mas em todo cenário nacional. São líderes em streamings e views do YouTube no gênero, tocam em todas as rádios do país e arrebatam multidões por onde passam. Dentre esses tantos craques do samba contemporâneo, Tiee é um dos nomes que vem com grande destaque.
Porém, a paixão pelo ritmo nem sempre foi latente no coração do cantor. Apesar de crescer em quadras de escolas de samba, seus primeiros contatos com a composição musical foram a partir do RAP, na rua onde morava. Assim ele virou o cara das rimas em uma família de sambistas.
— Meu ambiente natural sempre foi o samba. Nunca fui de brincar em pracinha, casa de amigos, sempre estive em rodas de samba, quadra de escola. Quando cresci e passei a andar mais na rua, fiz uns amigos no RAP. Aí só queria saber de rimar. Mas isso não durou muito tempo. Logo, logo, a chama do samba reacendeu e eu segui o caminho certo.
Apesar de ter ser um sambista genuíno, e declarar que não faz shows, e sim, samba, o cantor tem Michael Jackson como sua maior inspiração musical. Ele confessa que gostava muito de como o artista americano cantava e fazia espetáculos em tudo que tocava. No pagode, Leandro Lehart, Jorge Aragão e Fundo de Quintal são as referências para o artista.
No último dia 3 de outubro, Tiee gravou seu primeiro DVD, chamado Ladrão de Coração, na Ribalta, casa de shows na Barra da Tijuca. O registro, que contou com convidados como Péricles, Ferrugem, Belo e Xande de Pilares, será lançado em 2020 e é o principal trabalho do artista. No entanto, ele já pensa no futuro e planeja os próximos passos da carreira.
— O próximo passo é subir de nível. Jogar em campos que ainda não jogamos, para outras torcidas. Eu espero aumentar o meu público, aumentar de tamanho, mas sem perder a simplicidade. Quero mostrar para todo mundo que começou como eu, num botequim, tocando prato, que existe esperança. - afirma
Baterista da banda de Tiee há quatro anos, Miguel Torres, de 20 anos, foi apresentado ao artista pelo pai do cantor e hoje o considera seu padrinho na música. O instrumentista ficou um tempo fora da formação por conta de obrigações escolares, mas está de volta fixamente ao grupo. Segundo ele, Tiee é um cara diferenciado no meio, pois sempre busca cantar em locais aonde o povo está.
Miguel destacou como Tiee e sua banda são recepcionados no Rio de Janeiro e também falou sobre a influência do artista para o cenário atual do gênero na cidade. Para ele, é um local que respira esse tipo de cultura e valoriza muito o samba, mas passa por uma reformulação na venda de shows e ocupação de espaços.
— O Tiee reinaugurou o mercado de entretenimento no Rio. Hoje em dia não existem muitas casas de shows na cidade, então os eventos estão voltando para as escolas de samba, espaços fora do mainstream. E o Tiee representa aquele cara que vai em todos os lugares. Ele trouxe um novo panorama de eventos onde o samba pode chegar. Tendo um som, um terreninho, e uns banheiros químicos, o trabalho dele tá chegando. Isso é muito legal, pois é a nossa missão. - explica
Fã do cantor desde 2016, e integrante do fã-clube Pelotão Tiee, Ananda Felisardo, de 30 anos, sentiu a simplicidade de Tiee desde o primeiro momento em que o conheceu. Frequentadora assídua dos shows, a gerente de contratos sempre vai ao camarim no final dos espetáculos e enxerga o cantor como um grande contribuinte para melhorar a situação difícil que vive a cidade.
— Hoje o Rio de Janeiro vive várias situações complicadas e o Tiee contribui demais para que isso seja diminuído de alguma forma. As letras das músicas, a energia que ele emana, sua simplicidade. Tudo isso traz esperança de que ainda existem pessoas boas no mundo e que podemos viver melhores momentos.
Estudante de jornalismo e cantor nas horas vagas, Gabriel Dias é apaixonado pelo ritmo desde criança, mesmo sem influências na família. Conheceu o ritmo por meio de sua babá, Gabriela, que não desgrudava do radinho e ouvia enquanto cuidava do rapaz que hoje tem 25 anos.
— Ninguém lá em casa gostava muito de música. Se dependesse dos meus pais, nunca teria um contato direto. No entanto, minha babá não vivia sem o rádio dela. Ouvia muito Sorriso Maroto, Exaltasamba, isso acabou me aproximando desse mundo.
Depois de adulto, e já inserido no universo do samba, conheceu Tiee num dia aleatório, enquanto navegava pelo YouTube. Ficou encantado com aquele "jeitão" descolado e se identificou com a voz do artista. No entanto, o que fez Gabriel virar fã do cantor foi a maneira dele compor suas canções.
— Eu vejo o Tiee, junto com o Thiago Soares, encabeçando um movimento no pagode de cronistas da vida no subúrbio. O pagode tem vários cronistas na sua história, mas atualmente, esses dois são os maiores. As letras são sinceras, você percebe que existe coração, uma atenção no cotidiano. Eu acho muito bonito.
Grande nome do samba na década de 80, Sombrinha, integrante do Fundo de Quintal, foi uma das pessoas que viu Tiee começar. O sambista afirmou que tem muito carinho pelo cantor e não poupou elogios ao seu trabalho - e também para a nova geração do samba.
— O Tiee é muito talentoso. É criativo, tem muita técnica para escrever. Eu acho legal o que essa molecada vem fazendo, porque tudo acaba em samba, é tudo fincado no samba de raiz. No fim das contas, estão todos convidados para subir na árvore. Quando a gente começou, olhavam torto, mas fomos fortes e seguimos firmes. Essa nova garotada tem a mesma personalidade. Eles têm tudo para voar alto.
